
Seca, excesso de chuva e colheitas em risco no Brasil
Em 2026, o Brasil enfrenta uma crise alimentar silenciosa: a produção agrícola despencou 12% no primeiro semestre por efeitos combinados de secas extremas, enchentes e ondas de calor sem precedentes.
Fazendeiros do Cerrado e do Nordeste relatam perdas recorde em soja, milho e feijão, enquanto preços de alimentos básicos disparam e famílias de baixa renda já sentem o impacto no cardápio diário.
Segundo dados do IBGE e do Ministério da Agricultura, o setor rural responde por **24% do PIB nacional** e emprega diretamente mais de **9 milhões de pessoas** — o que amplifica os efeitos da crise climática sobre a economia e o emprego.

Secas e excesso de chuva: o novo normal agrícola
O El Niño de 2025–2026, combinado com mudanças nos padrões de circulação atmosférica, intensificou a oscilação entre períodos de seca extrema e precipitações torrenciais.
No Mato Grosso, maior produtor de soja do país, a deficiência hídrica reduziu a área plantada em 8%, enquanto no sul da Bahia, o excesso de chuva atrasou a colheita do café em mais de 45 dias.
"Estamos vivendo um ano de **transição climática acelerada**", afirma a meteorologista Maria Clara Mendes, da Embrapa Monitoramento por Satélite. "O que antes era evento extremo, agora ocorre com frequência anual."
A média histórica de chuvas no Cerrado caiu 22% nos últimos cinco anos, segundo dados do INPE. Ao mesmo tempo, eventos de precipitação intensa acima de 100 mm em 24 horas aumentaram 37%.

Feijão: o alimento brasileiro em alerta vermelho
O feijão, símbolo da culinária brasileira, vive sua pior crise em duas décadas. A safra de primeiro semestre de 2026 foi 31% menor que a de 2025.
Em Minas Gerais, principal estado produtor, a seca combinada com temperaturas acima de 38 °C reduziu a produtividade média de 1,8 tonelada por hectare para apenas 1,2 t/ha.
O preço do quilo do feijão no atacado subiu 68% entre janeiro e maio de 2026, segundo o CEPEA/USP. No varejo, o aumento médio foi de 54%, atingindo R$ 14,20 em São Paulo.
A escassez também impacta programas sociais. O Governo Federal teve que adquirir 15% a mais de feijão para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mas a oferta não acompanhou a demanda.
Agricultura familiar sob pressão
Milhares de pequenos produtores, que respondem por 70% do feijão e 30% da carne bovina consumidos no país, enfrentam dificuldades sem precedentes.
Em Goiás, a agricultora Maria dos Santos, de 58 anos, perdeu 80% da sua plantação de milho e feijão intercalado em abril. "Não tenho seguro rural, nem linhas de crédito acessíveis. Fiquei sem renda e sem semente para o próximo plantio", relata.
A pesquisa "Clima e Sobrevivência no Campo", conduzida pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela que **68% dos pequenos agricultores** já consideram abandonar a atividade em até dois anos se as condições não melhorarem.
A perda de produtividade também afeta a segurança alimentar nacional. Segundo o Mapa da Fome 2026, divulgado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar (ConSEA), **10,4 milhões de brasileiros** vivem em insegurança alimentar grave — 2,1 milhões a mais que em 2024.
- Soja: produção estimada em 142 milhões de toneladas (–11% ante 2025)
- Milho: safra verão caiu 18% no Centro-Oeste
- Feijão: queda de 31% na produção nacional no 1º semestre
- Café: produção do Brasil no ciclo 2025–2026 foi a menor desde 2017

Tecnologia e adaptação: o caminho para a resiliência
Empresas e instituições de pesquisa correm contra o tempo para desenvolver variedades de sementes mais resistentes ao estresse hídrico e térmico.
A Embrapa lançou em março de 2026 quatro novas linhagens de feijão com resistência à seca prolongada e ao calor extremo, mas a difusão tecnológica ainda é lenta entre os pequenos produtores.
"A transferência de tecnologia é um desafio estrutural", explica o pesquisador Carlos Eduardo Almeida, chefe da Embrapa Milho e Sorgo. "O produtor precisa de capacitação, infraestrutura de armazenamento e crédito para adotar práticas sustentáveis."
O uso de irrigação por gotejamento, por exemplo, cresceu 200% no último ano no semiárido, mas ainda atinge menos de 15% das áreas cultivadas com grãos na região.
Políticas públicas em atraso
O Plano Agrícola e Pecuário (PAP) 2026/2027 mantém linhas de crédito com juros de 5,5% ao ano — o mesmo de 2024 — mas a burocracia e o atraso na liberação comprometem sua eficácia.
O governo anunciou em maio o Programa de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), com investimento de R$ 2,8 bilhões nos próximos cinco anos. No entanto, ambientalistas questionam o cronograma de execução.
"Precisamos de **investimentos urgentes em infraestrutura hídrica rural**, como cisternas, barragens subterrâneas e sistemas de captação de água da chuva", afirma a gestora públicaAna Beatriz Lima, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Ainda em desenvolvimento, o Projeto de Lei 1.234/2026, que cria um fundo climático para o setor rural, tramita lentamente no Congresso Nacional, sem previsão de votação para este semestre.
O impacto global: o Brasil e o mercado internacional
Com a produção doméstica afetada, o Brasil pode perder participação no mercado internacional de commodities, especialmente de milho e feijão.
O país foi o maior exportador de milho em 2025, mas em 2026 já registra quedas de 19% nas exportações no acumulado do primeiro semestre, segundo a Abiove.
No caso do feijão, o Brasil importou 85 mil toneladas da Síria, Canadá e Turquia no primeiro trimestre de 2026 — primeira vez que o país comprou o grão no exterior em grande volume desde 2003.
Analistas do Banco Santander alertam que o aumento do custo das commodities agrícolas pode pressionar a inflação em até 0,8 ponto percentual em 2026, afetando diretamente o poder de compra das famílias.
"A estabilidade climática foi um *dividendo oculto* para a economia brasileira nas últimas décadas. Esse dividendo acabou", ressalta o economista-chefe do Ibre/FGV, Roberto Domingos.
Perspectivas e desafios para 2027
O segundo semestre de 2026 trará novos desafios: a plantade da safra de inverno (soja e trigo) depende das chuvas de outubro a dezembro.
O modelo climático do INPE indica probabilidade de 65% de El Niño no segundo semestre, o que reforça a necessidade de planejamento imediato.
Ao mesmo tempo, o setor privado investe em inteligência artificial para monitoramento de lavouras em tempo real. Empresas como Olam e JBS já testam drones e sensores de umidade no solo em mais de 200 mil hectares.
No entanto, a resistência à inovação e a falta de acesso ao crédito continuam sendo barreiras para a maioria dos pequenos e médios produtores.
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