
Secas, cheias e perda de produtividade: o custo climático da mesa brasileira
A produção de alimentos no Brasil entrou em um novo patamar de vulnerabilidade: em 2026, a seca extrema no Cerrado e as chuvas intempestivas no Sul provocaram recuos de até 18% em safras de grãos essenciais, segundo dados do Conab divulgados nesta semana.
Famílias já sentem o impacto nos preços — o preço do feijão subiu 34% no último ano, o arroz teve alta de 21%, e o milho, principal insumo da avicultura e suinocultura, disparou 47%, aponta levantamento do IPEA.
Esse cenário coloca em risco a balança comercial agrícola do país, que em 2025 faturou US$ 122 bilhões com exportações — mas agora enfrenta incertezas que podem reduzir essa receita em até US$ 15 bilhões até o fim de 2026, segundo projeção da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Secas e cheias: o novo normal agrícola
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou que o primeiro semestre de 2026 será o mais seco dos últimos 70 anos no Centro-Oeste.
Em Mato Grosso, principal estado produtor de soja e milho, a umidade do solo caiu para 28% — nível considerado crítico para o plantio.
“A chuva veio, mas em excesso — 120 mm em 24 horas, quando o ideal seria 25 mm semanais”, afirmou o engenheiro agrônomoCarlos Almeida, da Embrapa, em reunião técnica em Brasília.
Essa volatilidade extremada exige adaptação imediata. No Rio Grande do Sul, a estiagem no início do ano queimou 200 mil hectares de trigo, enquanto, dois meses depois, cheias repentinas submergiram áreas de arroz.

Quem paga a conta? Do campo à mesa
A cadeia produtiva inteira absorve o impacto. Produtores rurais enfrentam custos extras com irrigação, sementes耐性 e manejo fitossanitário reforçado.
Já os consumidores enfrentam preços elevados, com inflação no grupo “Alimentação no Domicílio” atingindo 9,2% em abril — acima da média geral do IPCA (6,8%).
Apesar do estoque atual de grãos ser de 106 milhões de toneladas — volume alto historicamente —, a distribuição regional e o transporte em vias comprometidas pelas chuvas geram escassez localizada e especulação.
“O problema não é a escassez absoluta, mas a geografia da crise”, explicou a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, durante seminário no Senado.
- Soja: 15% de perda na área plantada no Mato Grosso e Goiás
- Feijão: 34% de alta no atacado entre maio de 2025 e maio de 2026
- Arroz: 21% de aumento no preço ao consumidor, segundo IBGE
- Milho: 47% de alta, impactando aves e suínos
- Canadeaçúcar: colheita antecipada em 15 dias no Nordeste devido ao calor extremo
Investimentos em clima inteligente: caminho sem volta
O setor privado já reage. Empresas como JBS e Marfrig assinaram, em abril, termo de compromisso com o Ministério da Agricultura para adotar práticas de agricultura de baixo carbono até 2030.
No campo, tecnologia é a aposta: sensores de umidade, drones para monitoramento e sementes editadas geneticamente para maior resistência ao estresse hídrico começam a ser adotadas em larga escala.
A Embrapa Lançou em março o programa “AgroClima 2030”, com R$ 800 milhões em investimento inicial para pesquisa, adaptação de cultivares e capacitação de 50 mil agricultores.
“A adaptação não é opção — é condição para continuar produzindo”, afirmou o pesquisador Miguel Santos, coordenador do programa.
O risco de um “pico climático” na produção
Cientistas do IPCC apontam que o Brasil pode atingir um ponto de inflexão entre 2030 e 2035: além da temperatura média subir 2°C, a estiagem no Cerrado pode se tornar permanente.
Isso ameaçaria diretamente a “máquina agrícola” nacional: 70% da soja, 60% do milho e 85% do feijão são cultivados em áreas de cerrado.
O Brasil já perdeu 21% da cobertura nativa do bioma, e a fragmentação reduz a capacidade de retenção de água no solo — um dos principais fatores que suavizam oscilações climáticas.
Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas, cada 1°C de aumento acima da média histórica reduz a produtividade de grãos em 5% a 10%.
Políticas públicas e urgência do acordo climático
A PEC do Clima, em tramitação no Congresso, propõe metas vinculantes de redução de emissões para o setor agrícola, com prazo até 2045.
Além disso, o governo federal liberou R$ 1,3 bilhão em linhas de crédito especial para pequenos produtores adotarem técnicas resilientes — mas ainda há atraso na liberação e falta de capacitação local.
“Precisamos de seguros agrícolas acessíveis, infraestrutura hídrica descentralizada e incentivos fiscais para quem investe em recuperação de áreas degradadas”, defendeu a deputada Joenia Silva (AP), relatora da PEC.
No exterior, a União Europeia já sinalizou que exigirá comprovação de produção sustentável para importações a partir de 2027 — o que pode afetar até 30% das vendas externas do agronegócio.
A mensagem é clara: a mesa brasileira está cada vez mais conectada ao clima. Quem produzir com resiliência, ganhará mercado. Quem adiar, perderá alimentos — e vote.
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