
Queda de 23% na renda líquida: conta de luz espreme famílias brasileiras
Em maio de 2026, o reajuste médio de 28,7% na tarifa elétrica cortou R$ 132 do orçamento mensal das famílias, segundo dados da ANEEL e Anatel. O aumento, o maior desde 2022, atinge 98% dos consumidores residenciais e coloca a energia no topo da lista de preocupações financeiras, superando até alimentação e transporte.
Muitos lares já cortaram gastos com lazer, roupas e até medicamentos para honrar a nova conta. Em São Paulo, uma família de três pessoas paga agora R$ 598 por mês em média — valor que era de R$ 465 no início do ano. O impacto é sentindo com mais força nas regiões Norte e Nordeste, onde o uso de ar-condicionado e refrigeração é intenso o ano todo.
A crise se aprofunda em meio ao fim do bandeiramento tarifário e à recuperação pós-pandemia da demanda industrial, que pressionou o custo de geração. A inflação dos últimos 12 meses (5,9% no acumulado até abril de 2026) também elevou o custo de materiais e mão de obra no setor elétrico. O Departamento de Energia Elétrica (DEE) reconhece que os índices de inadimplência subiram 17% no primeiro trimestre, mas evita chamar isso de “crise estrutural”.

Reajuste sem alívio: por que a conta sobe mesmo com sol e vento?
A ANEEL justificou o aumento com base na “revisão tarifária anual” e na necessidade de repor perdas com a baixa hidrologia em 2025, quando os reservatórios caíram para 34% da capacidade — o pior nível desde 2001. Apesar de a geração eólica e solar ter batido recorde em 2025 (18,3% da matriz), o custo marginal de operação (CMO) subiu 21% em 12 meses, segundo dados da CCEE.
“O sistema ainda depende demais das termoelétricas para garantir o suprimento”, explica Marina Silva, diretora da Agência Nacional de Energia Elétrica, em audiência pública no Congresso. “Quando chove pouco, acionamos as usinas a gás e a óleo, que são **12 vezes mais caras** que a hidrelétrica.” A conta da energia nas regiões onde a chuva foi escassa subiu até 36% em alguns municípios do interior de Minas Gerais.

O custo oculto: quando a conta chega antes do salário
Para 62% das famílias, a conta de luz é o **quarto maior despesa fixa**, atrás apenas de aluguel, transporte e alimentação. Em famílias com renda até dois salários mínimos, o percentual gasto com energia subiu de 6,8% em 2024 para 9,1% em 2026 — um salto que, segundo o IBGE, supera o aumento real da renda (3,2% no mesmo período).
A economista Lúcia Helena, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), alerta: “A energia deixou de ser um bem comum e virou um **fator de exclusão social**. Quando 4 em cada 10 lares têm que escolher entre luz e remédio, estamos diante de um problema de política pública, não apenas técnico.” Um levantamento do Ipea aponta que 2,3 milhões de residências já estão em risco de corte de energia por inadimplência — número que cresceu 41% em 12 meses.
- 28,7% foi o reajuste médio nacional aplicado em maio de 2026
- R$ 132 é a média perdida por família com duas pessoas por mês
- 17% de aumento na inadimplência no primeiro trimestre de 2026
- 9,1% da renda média das famílias com até R$ 5.200 é destinada à energia
Custo social ou erro de gestão? O dilema das distribuidoras
As seis maiores distribuidoras do país (Eneva, Enel, Coelba, Celesc, Cemig e Light) registraram lucro líquido combinado de R$ 12,4 bilhões em 2025 — um aumento de 19% frente a 2024. A justificativa oficial é que os investimentos em redes e subestações dobraram nos últimos dois anos, com foco em resiliência pós-blackout.
“Revisamos 47% da rede em São Paulo nos últimos 18 meses”, afirma João Carlos Mendonça, diretor da Light. “Mas o custo da energia não é só de infraestrutura: é também de **segurança energética**.” Entretanto, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou, em relatório de março, que 32% dos projetos de modernização estavam atrasados ou superlotados em custos.
Quem mais sofre: regiões do Nordeste e classes de tensão
No Nordeste, a conta de luz subiu até 34,2% em 2026, impulsionada pelo alto custo da termoeletricidade e pela dependência de transmissão de regiões mais baratas. A Bahia e Pernambuco lideram o ranking de impacto, com 12,5% das residências em risco de corte por inadimplência — índice superior à média nacional (9,7%).
Já as classes de tensão média e alta — que incluem comércios pequenos, oficinas e até academias — pagam tarifas diferenciadas. A tarifa social, destinada a famílias de baixa renda (Bolsa Família ou cadastro único), garante descontos de até 65%, mas cobre apenas 18,3 milhões de unidades consumidoras — menos da metade do total de lares em situação de vulnerabilidade.
Novas regras e alternativas: o que muda após a MP da Energia Limpa
A Medida Provisória 1.243, sancionada em abril de 2026, cria o **Crédito Solar Compartilhado**, que permite que consumidores instalados em condomínios residenciais compartilhem energia gerada por painéis fotovoltaicos. A ANEEL estima que 450 mil condomínios sejam elegíveis até 2027.
Além disso, a MP endurece as penalidades para atrasos em obras de eletrificação rural e estabelece um fundo de estabilização tarifária financiado por contribuições das termoelétricas. “É um começo, mas não resolve o problema estrutural”, diz o deputado federal Ricardo Arruda (PSOL-SP), relator da MP. “O que precisamos é **rever o modelo de subsídios cruzados** e garantir transparência total nos custos.”

Famílias se adaptam: o cotidiano de quem corta o uso de energia
Em Curitiba, a dona de casa Maria dos Santos, 62 anos, trocou o chuveiro elétrico por um a gás e desligou a lavadora de roupas. “Agora lavo tudo à mão, às noites. Não dá para conviver com isso”, diz. Seu caso é comum: o IBOPE revelou que 41% das famílias reduziram o uso de ar-condicionado e 33% cortaram a lavagem de roupas em dias úteis.
O problema é que, sem políticas públicas eficazes, essas adaptações têm um custo humano. “A gente não vê apenas a conta subir — vemos doenças respiratórias aumentarem por causa do uso de fogão a lenha em substituição ao chuveiro”, alerta a médica epidemiologista Ana Paula Ribeiro, da Fiocruz. Dados do DATASUS mostram que, no primeiro trimestre de 2026, houve aumento de 14% nas internações por asma em regiões com alto custo de energia.
O futuro já chegou: investimentos em energia limpa não substituem urgência social
O Brasil investiu R$ 11,3 bilhões em energia solar em 2025 — recorde histórico. Mas o crescimento da capacidade instalada (2,1 GW no ano) não acompanha a velocidade da demanda. A indústria automobilística, por exemplo, investiu R$ 8,4 bilhões em novas linhas de produção de veículos elétricos, mas 68% dessas unidades ficarão em regiões com tarifa média baixa (Sul e Sudeste).
“A transição energética não pode ser só um projeto de elite”, ressalta o engenheiro Carlos Augusto, secretário de Energias Renováveis do Ministério de Minas e Energia. “Se não acompanharmos com tarifa social digital e programa de eficiência para baixa renda, vamos aprofundar a desigualdade.” Até o momento, apenas 12 cidades implementaram programas piloto de eficiência energética com foco em periferias urbanas.
A conta não fecha: quando a luz é um privilégio
A energia elétrica, antes símbolo de desenvolvimento, agora divide opiniões: para 58% da população, é um direito básico; para 27%, um bem de luxo. Esse cenário, segundo pesquisas do Ibope, é mais forte entre jovens de 18 a 24 anos (64% consideram o acesso à energia como direito fundamental), enquanto entre idosos o percentual cai para 41%.
A realidade, contudo, é que o acesso à energia limpa e barata exige mais do que tecnologia: requer **governança, transparência e política pública intersetorial**. Enquanto o Congresso analisa o novo Marco Legal da Energia, as famílias enfrentam o peso da conta — e muitas já começam a planejar como sobreviver ao verão de 2027, quando o risco de nova revisão tarifária é alto.
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