
Entregadores de app enfrentam recorde de demanda e riscos crescentes
O volume de pedidos via aplicativos de delivery cresceu 28% no primeiro trimestre de 2026, impulsionado pela alta do desemprego e pelo aumento do custo de vida, mas esse boom oculta uma realidade preocupante: os entregadores registram recordes de acidentes, sobrecarga de jornada e precarização extrema das condições de trabalho.
Muitos trabalham mais de 12 horas por dia, sem férias, 13º ou seguro contra acidentes, e enfrentam multas absurdas por atrasos — às vezes por fatores fora de seu controle, como trânsito ou erros do restaurante.
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C) do IBGE, mais de 2,3 milhões de brasileiros atuam como entregadores autônomos em plataformas digitais, sendo que 67% não possuem nenhum tipo de vínculo empregatício formal.

Plataformas lucram, entregadores correm
As três maiores plataformas do país — Rappi, iFood e Uber Eats — relataram crescimento de receita acima de 30% em 2025, apesar da crise econômica. O lucro líquido do iFood, por exemplo, subiu 34% no ano passado, enquanto os entregadores veem seus rendimentos líquidos caírem.
Um levantamento do instituto DataDado, feito com 8.400 entregadores em 26 capitais, revelou que o ganho médio por hora caiu de R$ 21,50 em 2024 para R$ 17,20 em 2025, considerando despesas com combustível, manutenção e desgaste do veículo.
"A gente corre o tempo todo, mas o dinheiro não rende. Às vezes, perde-se mais tempo esperando no restaurante do que entregando", disse João Silva, de 32 anos, há cinco anos na atividade, ao portal de notícias EconoBrasil.

Absurdo nas multas e pressão constante
As multas por cancelamento de pedido ou atraso foram o principal ponto de reclamação entre os entregadores. Uma pesquisa da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo (CDH-ALSP) apontou que 62% já sofreram penalidades sem justa causa.
Em 43% dos casos, os cancelamentos ocorreram por problemas no restaurante — como falha no preparo ou atraso na confecção do pedido —, mas a penalidade recai exclusivamente sobre o entregador.
- 28% aumento no número de acidentes com entregadores em 2025, segundo dados do DETRAN-SP
- 73% dos entregadores relataram ter sofrido agressões verbais ou físicas de clientes ou estabelecimentos
- 68% não têm acesso a nenhum tipo de seguro médico ou acidente de trabalho
- 56% trabalham mais de 10 horas diárias, muitas vezes sem pausas regulamentares
Justiça e propostas de regulamentação
O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou no início de 2026 um julgamento histórico sobre a natureza jurídica da relação entre plataformas e entregadores. O caso pode definir se o trabalho é ou não subordinado — e, portanto, se deve ser regido pela CLT.
Enquanto isso, o Congresso Nacional discute o Projeto de Lei 1.564/2025, que propõe regras mínimas de remuneração, horário de descanso e garantias de seguro. O texto ainda enfrenta resistência de lobby das plataformas.
"O modelo atual transferiu todos os riscos do negócio para o trabalhador. A plataforma define preço, rota, prazo e aplica punições — isso é subordinação", afirmou a deputada federal Beatriz Arcas, autora do projeto.
Consequências na saúde mental
O estresse crônico e a sensação constante de urgência têm gerado quadros graves de ansiedade e depressão entre os entregadores. Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com 1.200 profissionais constatou que 58% apresentam sintomas clínicos compatíveis com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
O medo de perder o acesso ao aplicativo por baixa avaliação — muitas vezes injusta — gera um ciclo de autovigilância constante, que interfere até na qualidade do sono.
"Muitos me disseram que sentem palpitações só ao ouvir o som de nova solicitação no celular", contou a psicóloga Clara Mendes, que atua com assistência a trabalhadores em situação de vulnerabilidade.

Cidades tentam conter caos urbano
Em São Paulo, a Prefeitura regulamentou em março de 2026 uma nova legislação que exige zonas de carga e descarga exclusivas para entregadores e multas para estacionamento irregular em locais proibidos.
A cidade também lançou o programa "Entrega Segura", que oferece capacitação básica em primeiros socorros e direção defensiva — mas ainda sem alcance nacional ou financiamento suficiente para cobrir 10% da força de trabalho do setor.
Em Curitiba e Porto Alegre, tribunais de justiça já determinaram que plataformas paguem indenizações por danos morais em casos de acidentes sem culpa do entregador.
Futuro em xeque
A automação começa a avançar: robôs de entrega já circulam em bairros de São Paulo e Brasília com apoio de empresas como iFood e Bemol. Enquanto isso, a discussão sobre direitos para os humanos que hoje compõem a espinha dorsal do setor ainda avança em ritmo lento.
"O delivery é uma inovação que mudou hábitos de consumo, mas não pode ser feita à custa da dignidade humana", alertou o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social. "O mercado precisa evoluir para um modelo sustentável — não só economicamente, mas socialmente."
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