
Endividamento das famílias brasileiras bate recorde em maio de 2026
O endividamento das famílias brasileiras atingiu R$ 2,48 trilhões em abril de 2026, novo recorde histórico, segundo dados divulgados hoje (17) pelo Banco Central. A cifra representa um aumento de 1,7% em relação ao mês anterior e 12,3% vs. abril de 2025, mesmo com a taxa Selic em 11,25% ao ano.
Para o cidadão comum, isso significa que a maioria dos lares já consome mais do que arrecada. O índice de comprometimento da renda com pagamento de dívidas chegou a 46,8% — o pior desde 2016. Muitas familias precisam recorrer aorotativo do cartão de crédito ou renegociar dívidas antigas para manter o fluxo de pagamentos.
A trajetória é fruto de uma combinação perigosa: inflação persistente, especially em alimentos e transportes, renda estagnada em meio a uma recuperação lenta pós-pandemia e facilidade artificial de crédito em operações de curto prazo. O comportamento do consumidor mudou: antes poupador, agora busca empréstimos para manter o padrão de consumo.

Custo da dívida subiu com a Selic, mas o crédito continuou atraente
A taxa básica de juros, embora elevada, não restringiu o acesso ao crédito da mesma forma que se esperava. Os bancos seguiram oferecendo linhas de crédito rotativo com taxas efetivas acima de 200% a.a., especialmente para operações com cartão de crédito e cheque especial.
“A política monetária já teve seu efeito máximo sobre o crédito consignado, mas não sobre o rotativo”, afirmou Cássia Mendes, economista-chefe do IPEA, em briefing exclusivo para este portal. “O problema é que o consumidor não enxerga o custo real da dívida em curto prazo — só quando já está preso no ciclo de juros compostos.”
O Banco Central alerta que o crescimento do endividamento foi mais forte entre as classe C e D, onde o índice de famílias com dívidas vencidas subiu para 38,6%. Já entre as classes A e B, o aumento foi de 6,2%, mas o valor médio da dívida por família é quatro vezes maior.
- R$ 11.240 é o débito médio por família endividada (alta de 4,1% vs. 2025)
- 61,3% das dívidas estão em atraso ou renegociadas (novo recorde)
- 34,8% das famílias usam até 50% da renda apenas para pagar juros
- R$ 86,7 bilhões foram movimentados em renegociações no primeiro quadrimestre de 2026

Crise dos alimentos e energia puxou o endividamento
A inflação de alimentos foi de 9,8% em 12 meses até abril — o dobro da meta do Banco Central. O custo com alimentação no domicílio subiu 12,3% em um ano, enquanto a energia elétrica teve alta de 8,6% devido à crise hídrica de 2025.
Esses dois fatores, isoladamente, representam quase 40% da cesta básica. Para as famílias que já vivem na margem, não há como cortar esses gastos — só sobra o crédito rotativo para manter o equilíbrio.
“Com a inflação em alimentos, o orçamento familiar virou um quebra-cabeça sem peças sobrando”, disse José Almeida, coordenador do Observatório de Finanças Familiares da FGV-EESP. “O salário mínimo real ainda está 11,4% abaixo do patamar de 2014 — e os preços não pararam de subir.”
O problema é estrutural: a renda do trabalho não acompanha a valorização dos ativos. Enquanto o IPCA-Endividamento (índice que acompanha preços de bens típicos de famílias de baixa renda) sobe a 9,3%, os salários médios reais caíram 0,8% em abril.

Setor de serviços também alimenta o ciclo de dívidas
Os serviços financeiros não são os únicos responsáveis. O setor de telecomunicações, saúde e educação também pressiona os orçamentos. Em 2026, planos de saúde coletivos tiveram reajuste médio de 10,5%, enquanto mensalidades particulares subiram 7,9%.
“A educação superior ainda é vista como investimento, mas muitos contratos foram fechados sem simulação realista de capacidade de pagamento”, afirmou Mariana Ribeiro, defensora pública especialista em direito do consumidor. “Há casos de pessoas com 20+ anos de dívida ativa em nome de faculdades que nem concluíram.”
A análise do IPEA mostra que 1 em cada 4 contratos de financiamento estudantil (FIES ou estaduais) foram renegociados em 2025. A dívida média por ex-aluno chega a R$ 43 mil, mesmo após anos de pagamento parcial.
Crédito consignado cresce — mas é tiro no pé
Um dos grandes paradoxos de 2026 é o crescimento de 18,4% no crédito consignado, mesmo com juros elevados. A lógica é simples: salários menores, prazos curtos e prestações fixas. Milhões de trabalhadores — especialmente servidores públicos e aposentados — recorrem ao consignado para pagar dívidas mais caras.
“É como trocar um incêndio por uma brasa”, alertou o economista Cássia Mendes. “O consignado reduz o custo imediato, mas prende o trabalhador a um desconto em folha por anos. Isso reduz a mobilidade financeira e aumenta a vulnerabilidade.”
Em 2026, o valor médio da prestação consignada passou de R$ 520 — o equivalente a 12,4% da renda mensal de um salário mínimo. Muitos clientes não percebem que, ao longo do contrato, pagam até 2,3x o valor emprestado.
Cenário para os próximos meses: alerta vermelho
O Banco Central estima que o índice de inadimplência pode chegar a 7,9% em dezembro de 2026 — acima da média histórica de 6,1%. A expectativa é de que, com a inflação mais controlada no segundo semestre, o crédito recue um pouco.
Mas o alerta é do setor de proteção ao crédito: Serasa Experian já registrou aumento de 23% nas negativações em abril. “O consumidor ainda acredita que a economia vai melhorar em breve — mas a realidade é que muitos estão negociando o futuro com o presente”, diz Ricardo Figueira, diretor de análise da entidade.
O Ministério da Fazenda prepara um pacote de medidas para 2027, mas especialistas pedem ação urgente: limitar taxas de juros rotativos, rever regras de consignado e fortalecer programas de educação financeira. Enquanto isso, as famílias seguem no limiar do abismo — cada vez mais endividadas, cada vez menos respiro.
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