
Empreendedorismo feminino bate recorde no Brasil em 2026
O Brasil registrou o maior número histórico de empresas lideradas por mulheres em 2026, com crescimento de 12,7% em relação ao ano anterior, segundo dados do Sebrae e IBGE. A pandemia acelerou tendências de autonomia e flexibilidade, impulsionando a adesão ao empreendedorismo.
Mulheres estão criando negócios em setores tradicionais e emergentes — da saúde digital à agroecologia — com foco em impacto social, sustentabilidade e inclusão, moldando um novo perfil de liderança empresarial no país.
Esse avanço ocorre em um contexto de alta inflação acumulada (5,2% em 2025), juros altos e vacilações no mercado formal, forçando muitas a buscar alternativas de renda por necessidade ou oportunidade. A informalidade ainda persiste em 41% dos empreendimentos femininos, mas há avanço na formalização.

Formalização avança, mas barreiras permanecem
A abertura de MEIs (Microempreendedores Individuais) por mulheres cresceu 18% em 2025, com destaque para áreas como educação, estética e tecnologia. Segundo o Mapa do Empreendedorismo Feminino 2026, do Sebrae, 56% das MEIs femininas agora têm CNPJ ativo, contra 49% em 2023.
Ainda assim, o acesso a crédito permanece desigual. O BNDES confirmou que apenas 22% dos empréstimos para micro e pequenas empresas foram destinados a mulheres em 2025. “Falta garantia colateral e, muitas vezes, falta também credibilidade institucional”, afirmou a diretora de Inclusão Financeira do BNDES, Maria Clara Souza.
Essa disparidade impacta diretamente o tamanho dos negócios: empresas lideradas por mulheres têm, em média, R$ 18 mil de faturamento mensal, contra R$ 32 mil de empresas lideradas por homens, segundo dados da Rais 2025.

Educação e redes de apoio viram alavancagem
Programas de capacitação, como o Empreender Mulher, do governo federal, e iniciativas privadas, como o She Leads Africa Brasil, já formaram mais de 120 mil mulheres em 2025 em áreas como finanças, marketing digital e gestão de negócios.
Esses programas incluem mentoria, acesso a feiras enetworks, além de oficinas de negociação e precificação. Uma delas, a loja virtual de cosméticos naturais Vida Verde, de Ana Paula Lima, cresceu 200% em dois anos com apoio de uma aceleradora focada em mulheres.
“Aprendi a calcular meu markup correto e a não subvalorizar meu trabalho”, contou Ana Paula ao portal de economia. “Hoje, meu lucro líquido é 37% maior do que no primeiro ano.”
- 43% das empreendedoras afirmam que acesso a mentoria foi decisivo para o crescimento;
- 61% não tinham experiência prévia em gestão antes de abrir o negócio;
- 78% usam redes sociais como principal canal de vendas;
- 29% já contrataram funcionários — índice recorde entre as mulheres.
Setores em ascensão: saúde, tecnologia e sustentabilidade
A saúde mental e bem-estar lideram o ranking de novos empreendimentos femininos, com aumento de 24% no número de clínicas, apps e programas de apoio psicológico. Empresas como a Conexão Mulher, que conecta terapeutas a clientes em todo o Brasil, faturaram R$ 4,2 milhões em 2025.
A tecnologia também ganha força: mulheres estão criando soluções para acessibilidade, educação inclusiva e agricultura familiar. A startup EcoField, de Natal, desenvolve sensores para pequenos agricultores — e é comandada por duas engenheiras agrônomas.
“Criamos algo que sentimos falta: uma tecnologia simples, barata e adaptada à realidade do pequeno produtor. Não encontramos isso em ferramentas tradicionais”, afirmou Beatriz Almeida, cofundadora.

Empreendedorismo rural: novas líderes no campo
No meio rural, o número de mulheres com CNPJ próprio saltou de 1,2 milhão em 2023 para 1,8 milhão em 2026. A expansão se deve a políticas públicas como o Pró-Sementes, que financia microempreendedoras no setor agrícola, e a chegada de energia elétrica e internet em áreas antes isoladas.
Estados como Bahia, Pernambuco e Minas Gerais lideram o crescimento, com cooperativas exclusivamente femininas produzindo orgânicos, artesanato e agroindústria. No Ceará, a Cooperativa de Mulheres Agroecológicas do Sertão (Coomasertão) faturou R$ 6,5 milhões em 2025 e emprega 237 mulheres.
“A terra deixou de ser só um lugar de trabalho para virar também um espaço de construção de identidade e renda própria”, destacou a líder comunitária Joana Silva, durante o Fórum Nacional de Mulheres Rurais.
Desafios estruturais: equilíbrio entre vida pessoal e negócios
Mesmo com o avanço, a dupla jornada continua sendo um obstáculo. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 79% das empreendedoras são mães e convivem com a responsabilidade por cuidados domésticos e infantis.
A falta de creches públicas e acessíveis é citada por 64% delas como fator limitante para o crescimento. “Trabalhar em casa não é sinônimo de tempo livre. O dia tem 24 horas, e elas precisam de mais apoio institucional”, afirmou a socióloga Carla Monteiro, autora do estudo.
A Lei do Empreendedor Materno, aprovada em 2025, criou incentivos fiscais para empresas que oferecem creche ou vale-creche, mas apenas 17% das MEIs femininas conhecem a medida. A fiscalização e divulgação ainda são limitadas.
Visibilidade e representatividade mudam a cultura
A presença de mulheres em eventos de inovação, feiras de negócios e programas de aceleração cresceu 42% em dois anos, segundo dados da AB Startups. Empresas como NuvemShop, Kroton e XP Inc. agora têm mulheres em cargos de liderança em mais de 38% dos cases de mentoria.
Essa visibilidade ajuda a derrubar o estereótipo de que “empreendedor é homem”. Um levantamento do Ipea mostrou que jovens de 18 a 24 anos têm 3x mais chances de considerar abrir um negócio quando têm referências femininas próximas.
“Quando minha filha me vê em reunião ou palestra, ela entende que não é só ‘algo que os homens fazem’. É um legado de autoridade e sonho”, disse a empresária de moda sustentável Roberta Dias, ao receber o prêmio Líderes do Futuro 2026.
O futuro: inclusão, inovação e escala
O próximo desafio é escalar os negócios femininos. Apenas 9% das empresas lideradas por mulheres ultrapassaram os R$ 1 milhão de faturamento anual em 2025 — índice que deve subir para 15% até 2028, segundo projeções do IPEA.
Asa ações de apoio precisam evoluir de capacitação para acesso a mercado e investimento. “Não basta ensinar a fazer o bolo. É preciso ajudar a vender, distribuir e escalar”, afirmou o economista Roberto Leão, diretor do Centro de Estudos Empreendedorismo e Inovação.
No horizonte, surgem fundos exclusivos para mulheres, como o She Capital, com R$ 200 milhões em recursos, e programas de procurement corporativo que priorizam fornecedoras. A expectativa é que até 2030, o empreendedorismo feminino contribua com mais de 3% do PIB brasileiro.
A força do empreendedorismo feminino não é mais uma tendência: é um movimento estrutural, impulsionado por necessidade, coragem e visão de futuro. O Brasil está apenas começando a desenhar seu impacto real.
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