
Adiamento da paternidade e maternidade atinge recorde entre jovens no Brasil
Em 2025, o número de nascimentos entre mulheres de 20 a 24 anos caiu **14,3%** em relação a 2015, segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), revelando um movimento de adiamento da maternidade e paternidade sem precedentes entre jovens brasileiros. A tendência, acelerada pela pandemia, não é mais pontual: é estrutural e regional.
Filhos hoje são planejados com média de **3,2 anos de diferença** em relação ao ideal relatado na adolescência — dados do IBGE indicam que, há dez anos, essa diferença era de apenas 1,4 ano. A busca por estabilidade financeira, carreira consolidada e acesso à saúde mental se tornou pré-requisito para a gestação.
Ao contrário do que se poderia imaginar, esse adiamento não é um recuo social, mas um ajuste estratégico diante de um cenário econômico volátil e de renda estagnada. O rendimento médio real dos brasileiros permaneceu praticamente estável entre 2016 e 2025, segundo o IBGE, enquanto os custos de criação subiram **118%** na mesma janela temporal.

Estabilidade financeira é o principal fator de adiamento
O custo de vida elevado é o principal bloqueio apontado por **78%** dos jovens entre 22 e 30 anos em pesquisa do Ipea de 2025. Moradia, alimentação e transporte absorvem mais de **65%** da renda média nessa faixa etária — índice considerado crítica de aperto orçamentário.
"Queremos oferecer algo melhor para nossos filhos do que tivemos, mas primeiro precisamos construir um chão", afirmou Ana Clara Souza, 28 anos, assistente administrativa em Belo Horizonte. Ela e o marido, ambos com MBA, ainda alugam apartamento de 32 m² e economizam em conta conjunta para formar um capital mínimo de entrada.
A crise habitacional aprofundou essa realidade. O aluguel médio de imóveis de 50 m² em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro subiu **41%** entre 2020 e 2025, enquanto salários não acompanharam o ritmo — crescimento médio anual de **1,8%** no setor privado.

Carreira e educação: fatores que pesam na decisão
O adiamento também reflete mudanças no acesso à educação superior. Entre 2015 e 2025, o número de mulheres entre 25 e 29 anos cursando ou concluindo graduação cresceu **37%**, segundo o Censo da Educação Superior. A maternidade passou a ser vista como um "interrupção de carreira" ainda não plenamente superada.
"A gente entrou em acordo: só teremos filhos quando eu estiver na diretoria e ele tiver estabilidade no concursos públicos", contou Lucas Mendes, 29, em Brasília. Ele e a esposa, biomédica em residência, adiaram a gestação por mais de três anos para garantir dois salários estáveis.
A percepção de instabilidade no mercado de trabalho também pesa. Apesar do recuo do desemprego em 2024, **42%** dos jovens entrevistados pelo Datafolha em 2025 disseram temer uma nova recessão nos próximos dois anos — e preferem esperar para não "correr riscos com uma criança".
- Idade média da primeira maternidade passou de 24,1 anos (2010) para **28,7 anos** (2025) —IBGE
- 27,3% dos nascimentos em 2025 ocorreram em mulheres com 30 anos ou mais — primeiro semestre
- Custo médio anual de um filho até os 2 anos: R$ 34.200 (INPE)
- 71% dos jovens afirmam que a falta de creche pública é fator de atraso na gestação
Crise de creches e licença-paternidade limita planejamento
O acesso à creche pública é outro gargalo que atrapalha o planejamento familiar. Em 2025, **3,2 milhões** de crianças de até 3 anos aguardavam vaga em creches públicas ou convênios — aumento de **22%** em cinco anos, conforme dados do Censo da Educação Básica.
"Não temos como deixar o bebê com a avó todos os dias. Ela tem hipertensão e diabetes. A alternativa seria babá particular, que custa mais que um salário mínimo", disse Mariana Lima, 31, enfermeira em Salvador. Ela e o marido, servidor público, só pretendem tentar uma gravidez após 2027.
A licença-paternidade de **20 dias**, estendida por lei em 2016, ainda é considerada insuficiente por especialistas. Empresas privadas costumam oferecer entre **5 e 7 dias** — menos da metade do recomendado pela OMS para vínculo emocional inicial.

Impacto demográfico e desafios futuros
O adiamento da fecundidade tem reflexos diretos na curva demográfica brasileira. O número total de nascimentos caiu de **3,2 milhões** em 2015 para **2,7 milhões** em 2025 — queda de **15,6%**, a maior em 50 anos.
Especialistas alertam que, se essa tendência se mantiver, o Brasil poderá enfrentar envelhecimento acelerado já em duas décadas. "A população economicamente ativa começa a encolher a partir de 2035, e não temos políticas públicas preparadas para isso", afirmou a demógrafa Dra. Fernanda Ribeiro, da USP, em evento promovido pelo Ipea.
Enquanto isso, os jovens seguem calculando cada passo. "Não estamos postergando a vida — estamos construindo as bases para vivê-la com menos insegurança", resumiu João Pedro, 26, em São Paulo. A busca por estabilidade não é egoísmo, mas responsabilidade redefinida.
Comentários
Postar um comentário