
Entregadores de app: crescimento do delivery e os desafios que exigem regulação
O delivery bate recorde em 2026, com 3,2 bilhões de pedidos ano a ano, mas entregadores enfrentam precarização, riscos de trânsito e renda instável.
Milhões de brasileiros dependem da plataforma para sobreviver, mas sem direitos trabalhistas, seguro ou condições mínimas de segurança — o modelo escala, mas sem responsabilidade social.
O setor gerou R$ 42 bilhões em faturamento em 2025, segundo dados da ABComm, mas só 12% dos entregadores têm acesso a qualquer tipo de benefício previdenciário. A crise econômica aprofundou a dependência dessas plataformas como fonte de renda, mas também a vulnerabilidade estrutural dos trabalhadores.

UM SECTOR QUE NÃO PARA DE CRESCER
A pandemia acelerou a digitalização dos hábitos alimentares, mas foi a adaptação constante das plataformas ao consumidor pós-crise que consolidou o modelo como padrão nacional.
Segundo pesquisa da FGV Econc, 68% dos brasileiros usam apps de entrega pelo menos uma vez por semana, contra 39% em 2019. A média de pedidos diários por usuário subiu 117% em cinco anos.
As três maiores plataformas — Rappi, iFood e Mercado Delivery — concentram 86% do mercado, segundo Mapa Digital 2026. O crescimento foi impulsionado por parcerias com supermercados, farmácias e restaurantes de nicho, que ampliaram o leque de opções.

SEM VÍNCULO, SEM PROTEÇÃO
A maioria dos entregadores opera como **pessoas jurídicas**, o que os isenta da CLT, mas também os deixa sem férias, FGTS, seguro-desemprego ou acesso a benefícios da Previdência.
Em 2025, o Supremo Tribunal Federal julgou procedente uma ação civil pública que questionava essa figura jurídica, mas a regulamentação ainda é fragmentada. Alguns estados, como São Paulo e Minas Gerais, aprovaram leis estaduais que criam diretrizes mínimas de segurança e remuneração.
O economista José Almeida, da USP, afirma: “O trabalho por aplicativo não é novo, mas sua escala e falta de oversight geram um vácuo regulatório perigoso. O Estado não pode deixar de fiscalizar direitos mínimos”.
- 74% dos entregadores relatam ter sofrido algum tipo de acidente leve ou grave durante o trabalho
- 61% não possuem seguro contra acidentes pessoais
- 49% trabalham mais de 12 horas por dia, segundo调研 da Dados Brasil
RENDERAÇÃO E CUSTOS OCULTOS
A promessa de “ganhar quanto quiser” esconde realidades de custos operacionais não compensados: gasolina, manutenção, celular, seguros voluntários e multas.
Um levantamento do instituto Datafolha revela que, após descontados os custos diretos, 56% dos entregadores ganham menos de um salário mínimo mensal — valor que cai para 38% quando considerados apenas os que trabalham mais de 30 horas semanais.
Em São Paulo, entregadores relatam que a cada 10 pedidos, pelo menos 3 são cancelados pelo cliente após a entrega, o que reduz o ganho líquido sem compensação. “O app nos cobre por cancelamento, mas não nos dá direito de recusar pedido já na porta”, diz João Silva, de 29 anos, há seis anos na atividade.
A FGV Estudos do Trabalho aponta que 83% dos entregadores pagam por manutenção própria — motos e bicicletas são os meios mais usados, mas com pouca assistência técnica formal.

SEGURANÇA EM RISCO
As vias urbanas densas das grandes cidades tornaram-se cenários de risco diário. Segundo o DATATRAF, houve aumento de 142% no número de acidentes com entregadores entre 2020 e 2025.
A pressão por tempo médio de entrega — hoje em torno de 28 minutos — gera risco à vida. Plataformas afirmam não influenciar no cronometragem, mas dados internos vazados mostram que entregadores com tempo acima da média recebem pontuações menores, o que afeta suas próximas atribuições.
No Rio de Janeiro, um projeto de lei em tramitação na Assembleia Legislativa propõe faixas exclusivas para motociclistas em rotas de entrega e limites máximos de tempo de entrega sem pausas. “O entregador não é um robô”, diz a deputada Maria do Perpetuo Socorro (PSOL-RJ).
A OIT classifica o trabalho de entrega como de alta pressão psicossocial, com índices de estresse superiores à média de setores de atendimento. “A lógica de eficiência máxima ignora a saúde mental”, alerta a psicóloga clínica Ana Lúcia Pinto, que atua com trabalhadores autônomos.
TECNOLOGIA COMO DOBRO EDIP
As plataformas investem pesado em inteligência artificial para otimizar rotas, prever demanda e reduzir custos — mas os entregadores são os últimos a ter acesso a ferramentas que os protejam.
A tecnologia de geolocalização em tempo real permite que o cliente veja onde está o entregador, mas não que ele reporte situações de risco com agilidade. Em 2025, foi lançado o app “Guardião”, desenvolvido por um grupo de sindicatos, com botão de pânico integrado à central de polícia, mas sua adoção é ainda tímida.
O pesquisador Carlos Magalhães, do Centro de Estudos do Trabalho e Direitos Humanos, afirma: “A inovação tecnológica deve ir além da maximização de lucro. Precisa incluir mecanismos de proteção, transparência e voz ativa dos trabalhadores”.
Empresas como iFood e Rappi afirmam ter implementado medidas de segurança, como alertas de tráfego e paradas automáticas após 4 horas de uso contínuo. No entanto, a maioria dos entregadores diz que desativa essas funcionalidades para não perder pedidos.
QUEM PAGA O PREÇO?
O custo social do delivery está sendo bancado pelos próprios entregadores — em saúde, tempo de vida e risco físico.
No Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, há mais de 230 ações coletivas movidas por sindicatos contra plataformas, com pedidos de reclassificação de vínculo empregatício e indenizações por danos morais.
O Conselho Nacional de Justiça criou em 2026 uma central de conciliação específica para litígios envolvendo trabalho digital. Já foram registradas 14.700 demandas desde o início do ano.
A especialista em direito digital Fernanda Ribeiro, da PUC-SP, ressalta: “O trabalho mediado por algoritmo exige uma nova leitura do direito do trabalho. A categoria jurídica de empregado precisa evoluir para abarcar a realidade das plataformas”.
Em julho de 2026, o Congresso Nacional retomou os trabalhos da Comissão Especial do Trabalho Digital, com expectativa de conclusão até dezembro. A proposta em análise prevê regras mínimas de transparência, direito à desligamento temporário sem punição e acesso a dados sobre como os algoritmos operam.
O debate está longe de ser apenas econômico. Envolve direitos, dignidade e o futuro do trabalho no Brasil — onde quase 5 milhões de pessoas vivem diretamente do delivery, mas ainda lutam para ser vistas como profissionais, não como “soluções logísticas”.